Home > Microrregião de Teófilo Otoni > Teofilo Otoni >

Comunidades Quilombolas de Teófilo Otoni

O município de Teófilo Otoni apresenta três comunidades negras rurais pré-identificadas como remanescentes de quilombo – Cama Alta, Córrego Novo e São Julião – além de um “quilombo urbano” – Margem da Linha

Entenda o Que São Comunidades Quilombolas

Comunidades quilombolas são grupos sociais formados por descendentes de africanos escravizados que, historicamente, resistiram à escravidão e mantiveram suas tradições culturais, práticas religiosas, e modos de vida comunitários. Essas comunidades se estabeleceram em áreas rurais ou urbanas, frequentemente em locais de difícil acesso, para garantir sua autonomia e segurança.

Remanescentes quilombolas são comunidades que, mesmo após a abolição da escravidão, conseguiram manter suas características culturais e territoriais. Essas comunidades lutam pelo reconhecimento oficial de seus territórios e direitos, buscando preservar suas tradições e modos de vida. No Brasil, essas comunidades têm proteção especial garantida pela Constituição, que reconhece seus direitos às terras que tradicionalmente ocupam. As comunidades quilombolas são um símbolo de resistência e identidade, e desempenham um papel crucial na preservação da história e cultura afro-brasileira.


Comunidades Quilombolas de Teófilo Otoni

Contexto e Localização

O município de Teófilo Otoni apresenta três comunidades negras rurais pré-identificadas como remanescentes de quilombo – Cama Alta, Córrego Novo e São Julião – além de um “quilombo urbano” – Margem da Linha.

1. Margem da Linha

A “Estrada de Ferro Bahia e Minas”, inicialmente propriedade da Província da Bahia, começou a ser aberta em 1881, ligando Caravelas, no litoral baiano, à serra de Aimorés, na divisa com Minas Gerais. Somente no ano de 1898, esta ferrovia chegou a Teófilo Otoni e foi inaugurada com toda pompa e festividade no dia 03 de maio.

A maioria dos trabalhadores eram negros, muitos vindo de Helvécia na Bahia, uma mistura de ex-escravizados, visto que sua construção se iniciou no período escravista, ou filhos e netos desses, que buscavam ascensão através do trabalho, sendo importante destaca duas a três gerações trabalhando na mesma ferrovia, uma vez que aos 15 anos, adolescentes já estavam na "escola técnica" que já funcionava como um trabalhador padrão.

Por Vilamir Azevedo, Antiga estação ferroviária de Helvécia

Ocupação

Às margens do antigo leito da ferrovia, hoje Rua Júlio Costa, Bairro Palmeiras, habitavam os próprios funcionários da Estrada de Ferro Bahia e Minas, que precisavam morar próximo ao trabalho, passando ocupar toda a Margem da Linha, formando uma grande família, como a sua cultura própria, dando a Teófilo Otoni uma caso único de um Quilombo (urbano) formado partir de uma ferrovia. Em 23 de Outubro de 2023 a Fundação Palmares reconheceu a Margem da Linha como Remanescente de Quilombolas.

Outro fato a se destacar é que até 1950 ainda existia a prática de açoites pelos chamados "feitores" homens brancos que usam de violência contra os negros para trabalharem mais rápido, ou por consumir álcool (devido as altas cargas de trabalho era muito comum o consumo de álcool para lidar com as longas e jornadas de trabalho, e as péssimas condições impostas).

D. Ondina - Trabalhadora da Bahia-Minas na Margem da Linha

Pela Lei Ordinária nº 2.312, de 16 de junho de 1983, de autoria do vereador Ary Pereira Ferreira, "Ficou Denominada Rua Júlio Costa O Leito Da Extinta Estrada De Ferro Bahia Minas, Iniciando Na Estação Rodoviária, Rumo a Cidade De Ladainha, Em Toda Sua Extensão Habitada E Habitável No Futuro."

Em 23 de Outubro de 2023 a Fundação Palmares reconheceu a Margem da Linha como Remanescente de Quilombolas.

Importância Econômica

A empresa chegou a ter dois mil empregados em Teófilo Otoni, e pode ser considerada a maior companhia empresarial que houve na cidade, sendo fundamental para o fim da "Teófilo Otoni rural" para início do processo de modernização.

Segundo dados da CEDEFES de 2009, na Margem da Linha existia cerca de mais ou menos seiscentas moradias e aproximadamente dois mil e quatrocentos moradores, em terras anteriormente da união, cedidas ao município.

Comunidade margem da linha em Teófilo Otoni-MG, por Sérgio Lana Morais

Associação Cultural Ferroviários da Bahia-Minas (ACFBM)

A comunidade realiza os festejos da Folia de Reis, existe também a associação de moradores, e a Associação Cultural Ferroviários da Bahia-Minas (ACFBM) - Teve sua sede Inaugurada como Associação Cultural e Museu Ferroviário Bahia-Minas em novembro de 2008, e foi criada com intuito de valorizar os homens negros da Bahia e Minas que ajudaram construir e transformar Teófilo Otoni, e o Vale do Mucuri, muitas vezes perdendo membros, ou até mesmo a vida, sendo enterrados na própria estrada.

Criada com intuito de resgatar a história da Bahia-Minas, segunda a presidente, Perpétua de Jesus, o local foi a casa do chefe da estação Júlio Costa, e que após muita luta conseguiram o direito de retomar o local, porém muita coisa se perdeu, tanto materiais que morfaram, quando a perda da estrutura original, como o piso de madeira.

O local busca se transformar também em Museu, além de já ter o Coral Vozes da Bahia-Minas, que faz apresentações em diversos eventos da cidade, resultado da tentativa de resgate do local.

1.1 Júlio Costa

Nascido no Distrito de Helvécia (Nova Viçosa), Júlio Costa, que era descendente de escravizados, nasceu a 01 de julho de 1915, e faleceu em 26 de julho de 1982 em Teófilo Otoni, aprendeu na colônia negra de Helvécia o dialeto Nagô (Iorubá-Nagô)

Morou em sua cidade natal até os 25 anos, onde trabalhava com o tio, na exploração de madeira para a Rede Ferroviária Bahia-Minas, em 1940/1941 vem para Teófilo Otoni, onde começou a trabalhar na ferrovia, exercendo as funções de maquinista e foguista. Teve participação importante na construção dos paredões que aconteciam em regime de mutirão devido o alto nível de força necessários, e a falta de instrumentos adequados.

Mais tarde foi promovido a maquinista de 1ª classe por indicação do Governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, que fez uma viagem especial a Teófilo Otoni e Ponta de Areia, na Bahia, e devido ter visto grande eficiência e responsabilidade em Julio Costa, o promoveu.

Em 1942, se casou com Julita Monteiro em Nanuque, e passou a residir aqui no bairro Palmeiras, tendo Maria das Dores como sua única filha.

Júlio Costa ao centro

2. Cama Alta

A comunidade de Cama Alta está localizada a 45 km de Teófilo Otoni, próxima ao povoado de Brejão, no distrito de Crispim Jaques, no Vale do Mucuri, região nordeste de Minas Gerais. Em 2010, Cama Alta contava com cerca de 113 habitantes.

Origem e Formação

De acordo com relatos dos mais velhos, como Miguelina, Horácio, Joana e Sebastiana, o primeiro a chegar na região, no início do século XX, foi Miguel, também conhecido como “velho capixaba”. Ele teria adquirido um pedaço de terra de outro proprietário, porém sem documento formal de compra.

Posteriormente, por volta de 1915, Manoel Pereira de Sá e seu filho Júlio Pereira de Sá migraram da região de Salinas, no norte de Minas Gerais, fugindo da seca. Segundo Horácio Pereira Barbosa, neto de Manoel e filho de Júlio, ao chegarem à região, abriram posse na mata e construíram suas casas.

Nome da Comunidade e Modos de Vida

O nome “Cama Alta” teria origem na presença expressiva de onças na área, o que obrigava os moradores a construírem suas camas em locais elevados para proteção. As memórias dos moradores mais velhos indicam que, embora no passado houvesse mais fartura graças à regularidade das chuvas e à fertilidade da terra, atualmente a produção agrícola é menos abundante. Antigamente, a comunidade cultivava uma variedade de produtos como arroz, feijão, café, milho e mandioca, além de possuir uma fábrica de farinha, um engenho de cana e produzir utensílios de barro.

As lembranças dos mais velhos sobre o passado, a partir do presente, concordam ao constatarem que “antes havia mais fartura, mas não tinha muitas facilidades”: em virtude da regularidade das chuvas, nos períodos específicos para cada plantio, a terra era “boa”, por isso propiciava a plantação de uma variedade de produtos (arroz, feijão, café, bananeira, abobreira, milho, mandioca, entre outros), o que já não mais acontece na atualidade. Havia ainda uma “fabrica” de farinha, um “engenho” de moer cana e o feitio de panelas de barro e de outros utensílios.

Assim como outras comunidades é práticada a agricultura de subsistência com pequenas roças – arroz, milho, café, amendoim – e da criação de animais.

Naquela época, as crianças, os jovens “ajudavam na roça, no entanto hoje não demonstram interesse”. Logo, a insuficiente produção de alimentos pela própria comunidade faz com que a maioria das famílias compre em pequenos mercados no povoado de Brejão, a preços superfaturados e incompatíveis com a renda que circula no interior dessas famílias.

Posse e Transmissão da Terra

Assim como em São Julião, a apropriação inicial da terra em Cama Alta se deu por posse. Nas três comunidades – Cama Alta, São Julião e Córrego Novo – as terras foram transmitidas aos descendentes dos fundadores via herança, mantendo o vínculo com a terra ao longo das gerações.

3. Córrego Novo

A Comunidade quilombola Córrego Novo, está a 40 km de Teófilo Otoni, situada no distrito de Tópazio, é composta por quatro núcleos familiares, em 2010 tinha cerca de 173 habitantes, tendo a Folia de São Sebastião como importante manifestação cultural.

Segundo um dos membros mais velhos da comunidade, seus pais chegaram à região do Vale do Mucuri onde hoje está Córrego Novo por volta de 1929 e já encontraram ali instalado “Manezinho da Cachoeira”, de quem compraram a terra (SILVA, 2009). Embora ele fale sobre a compra da terra pelos pais, não apresenta recibo ou documento de propriedade que a comprove, no entanto acredita e afirma sua existência.

Essa comunidade é composta por quatro grandes núcleos familiares: Barbosa Lima, Barbosa Pinto, Imburama e Trega, sendo que os Barbosa Lima são, quantitativamente, o núcleo mais expressivo e mais antigo.

4. São Julião II ou Lavra dos Pretos

História e Formação

A comunidade de São Julião, também conhecida como Lavra dos Pretos devido à concentração de minérios na região, está situada a 83 km de Teófilo Otoni, no distrito de Tópazio, próxima ao povoado de Maravilha. Em 2010, contava com cerca de 259 habitantes.

A formação da comunidade está ligada a movimentos migratórios e históricos relevantes. Segundo relatos, os primeiros moradores vieram de um lugarejo próximo à cidade de Jequitinhonha, possivelmente Felisburgo, no estado de Minas Gerais. No entanto, há indícios de que esses movimentos migratórios tenham começado em outra localidade na Bahia.

Fuga da Guerra do Paraguai e Formação Familiar

Um dos fatores determinantes para a formação de São Julião foi a fuga das famílias durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), pois havia o temor de que os jovens fossem recrutados para compor a frente de batalha. Além da busca por melhores condições de vida, essas famílias buscavam um local seguro para se fixar.

Na comunidade, destacam-se os descendentes dos fundadores, especialmente da família Pereira, que ocupa o território há quase 150 anos. Outras famílias, como Paraguai, Vaz, Leão e Nogueira, também fazem parte desse núcleo comunitário, criando uma grande rede de parentesco entre os moradores de São Julião.

Legado e Tradição

Até hoje os descendentes dessas famílias continuam a manter as tradições e o legado deixado por seus antepassados, reforçando os laços de parentesco e preservando a história de São Julião.

Eventos

Na comunidade existe o Grupo de Batuque Pai João Preto (2011), a Folia Santos Reis e São Sebastião (que começa sua comemoração no dia 25 de dezembro até o dia 6 de janeiro do ano seguinte, sendo que nessa festa os reizeiros visitam somente residências que confeccionaram o presépio). São Julião conta com vários eventos como o Festival da Cultura Quilombola (2014) e Encontros de Violeiros.

4.1 João Preto, ou Pai João

Em junho comemora-se o aniversário de nascimento de João Preto, ou Pai João, o patriarca dos Pereira. Por isso, esta data carrega grande simbolismo para a comunidade de São Julião e todos os que lutam pela justiça e paz neste Mucuri. João Preto dedicou sua vida a lavrar terra, cultura e religiosidade populares e à luta por uma vida melhor, justa e pacífica na sua comunidade. Esta luta hoje é continuada e ampliada para a questão quilombola pela a Associação Quilombola Vaz Pereira, composta pelos Vaz, Pereira e Paraguai.

4.2 Pereira da Viola

Nascido em 1962 no município de Teófilo Otoni, no nordeste de Minas Gerais, Pereira da Viola foi criado em uma comunidade quilombola, tendo começado a tocar violão aos 11 anos de idade e a se apresentar em show de calouros aos 14. Mas foi só na década de 1980 que o artista passou a compor, influenciado por gente como Dércio Marques e Milton Nascimento.

Aos 28 anos, a trajetória de Pereira da Viola mudou, quando ele assistiu a uma apresentação de um violeiro acompanhado de um grupo de folia de reis. Logo, comprou o instrumento de 10 cordas e recebeu de um amigo o apelido que viraria seu nome artístico. Em 1994, o músico lançou o seu primeiro disco, Terra Boa.

Pereira da Viola

4.3 Escola Municipal Clarindo Vaz dos Santos

A Escola Municipal Clarindo Vaz dos Santos está situada na comunidade São Julião. Foi instituída em 1962 e seu funcionamento se dá pela Autorização nº 29/81. Recebeu este nome em homenagem a Clarindo Vaz, avô dos doze filhos de Mãe Augusta (falecida), matriarca da comunidade São Julião.

Conta a primeira professora da escola, Maria Auxiliadora Pereira 28 que em 1967 após o prefeito fechar a escola, ela foi trabalhar em Belo Horizonte e depois em Nanuque como enfermeira, na lavanderia e na roça. A escola voltou a funcionar somente em 1976 na comunidade dos Nogueiras tendo ela novamente como professora.

Geografia

A paisagem da região é caracterizada pela presença de morros, montanhas e lajedos, além de resquícios de Mata Atlântica. O acesso à comunidade se dá por estrada de terra. O trajeto, conhecido como Estrada Real, margeia o Rio Mucuri.

Quando alcança o distrito de Presidente Pena, o caminho passa a ser acompanhado pelo Rio Todos os Santos. Ao longo do percurso, pequenas pontes estendem-se sobre os córregos, sendo que outra, extensa, atravessa o Rio Todos os Santos.

Fontes:

SILVA, Eva Aparecida da. Territórios Quilombolas no Vale do Mucuri: As comunidades remanescentes de quilombo de Teófilo Otoni/MG. Revista do Instituto de Ciências Humanas

Brito, Mônica Porto Educação: uma análise das práticas educativas na Escola Municipal Clarindo Vaz dos Santos situada na comunidade “São Julião” no Vale do Mucuri. Teófilo Otoni, 2016.

Cama Alta https://www.cedefes.org.br/projetos_realizados-131/

CARVALHO, Jeziel. Pereira da Viola - Rádio Senado, Minas Gerais. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/radio/1/som-brasilis-1/2023/04/20/pereira-da-viola-minas-gerais>

História do Pontilhão à Rua Júlio Costa. Disponível em: <redescobrindoosvales.tur.br/vale-do-mucuri/microrregiao-de-teofilo-otoni/teofilo-otoni/pontilhao-rua-julio-costa>.

O Negro no Mucuri e a Estrada de Ferro Bahia e Minas. Disponível em: <redescobrindoosvales.tur.br/vale-do-mucuri/microrregiao-de-teofilo-otoni/teofilo-otoni/o-negro-no-mucuri-e-a-estrada-de-ferro-bahia-e-minas.php>. >

SANTOS, A. Nas margens da linha: território negro e o lugar do branco na ocupação urbana na cidade de Teófilo Otoni em meados do séc. XX. Revista Espinhaço , [S. l.], v. 5, n. 1, 2022. DOI: 10.5281/zenodo.3958084. Disponível em: https://revistas.ufvjm.edu.br/revista-espinhaco/article/view/80. Acesso em: 15 ago. 2024.

Lei Ordinária nº 2.312, de 16 de junho de 1983. Dispoe Sobre Denomincao De via Publica. Fica Denominada "Julio Costa" O Leito Da Extinta Estrada De Ferro Bahia a Minas, Iniciando Na Estação Rodoviária, Rumo À Cidade De Ladainha, Em Toda Sua Extensão Habitada, E Habitável No Futuro. Sancionada Em 17/06/83. Teófilo Otoni, MG: Câmara Municipal , 1983